quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A SAUDADE É UMA ILHA

A saudade é uma ilha. Uma ilha deserta, quieta e ao mesmo tempo agitada. As águas ao seu redor não fazem movimento. Tudo é muito quieto e barulhento, confuso, cardíaco e, por vezes, sem ar. A natureza da ilha não se mexe, é como uma fotografia antiga, estática... 

A saudade é uma ilha de uma pessoa só, num quadro de sala de estar.  Ninguém chega na ilha da saudade sem antes nadar pelas águas violentas da ausência. A ilha é colorida, mas ninguém se interessa por suas cores. Os dias da ilha são longos e, suas noites, estranhas. Raramente a saudade é uma noite calma. 

A saudade é uma ave que não sabe mais voar. A ilha da saudade é um labirinto sinistro, cheio de quebradas, psicoses, palhaços e músicas antigas. Em um dos cantos da ilha há um violão, desafinado e sem a Lá. A música da ilha não tem notas conhecidas. Ninguém consegue compor a canção que todos cantam. Ninguém consegue cantar a saudade de outra pessoa. 

As areias da ilha são cabelos brancos, seus coqueiros são barbas envelhecidas e ossos doloridos. O Sol é único intacto a brilhar no céu da ilha da saudade. Dia após dia é preciso lutar, violentamente, e tirar os olhos da ilha para colocá-los no céu do Sol. Um dia eu vou sair sair da ilha, rumo ao Sol. A ilha é só um momento. O sol é o tempo.



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